quarta-feira, 15 de junho de 2016

O narcisista

Sou fascinado pelo pronome oblíquo tónico (MIM) e enfeitiçado pelo pronome tónico reto (EU).

domingo, 17 de abril de 2016

Parte de um procedimento...


Impossível, disse. A morte não é a única passagem certa da vida, tu nunca vais entender isso.
– Desculpa, agarro-me em demasia às ideias dos filósofos velhos, Schopenhauer, por exemplo, disse que a morte era a musa da filosofia.
Enquanto assim pensares não vais conseguir entender a essência da própria vida, se continuas a negar a realização dos teus desejos espontâneos e a duvidar dos prazeres da razão, não serás nunca feliz.
 Quem te disse que a isso almejo? Desprezo esse tipo de felicidade, essa maneira abstrata de não ser nada em concreto, desprezo essa particularidade de tentar libertar os outros dos seus medos, dos temores dos processos naturais, da dissolução das partículas elementares, da esperança no retorno de nada consistente.
Tu é sabes, sabes sempre e acabas sempre por perder, mesmo que para ti isso seja um ganho, acabas sempre por ver coisas, por persistires nelas e nelas veres outras completamente irreais, tens essa capacidade, eu não, mas também não gostaria de a ter. -Pois tu não gostarias nem gostas de ter muitas coisas, uma delas é o simples trabalho que te dá refletir, à falta de coragem para mudares o tempo passado. -Achas isso possível? – Sim acho, acho que a mudança interior processa parte do tempo referente ao passado, acho, pode ser parte de um procedimento de inversão de vivências. Sabes que não possuo essas capacidades psicológicas, que nem gosto de psicólogos, desses que nos analisam a todo o instante, sabes que não gosto desse tipo de análises, vivo com as minhas próprias vivências, as minhas próprias análises, profundas? Algumas, mas, na sua maioria, tristemente superficiais.
-Por que tu assim queres, reconheço-te, eu e mais pessoas, capacidades ínfimas de realizares meditações profundas acerca da liberdade de pensar.
És só tu que me vês assim, eu tento sempre não fugir a esta condição de mortal, para isso, compreendo o mundo dos outros, dos que vivem apegados a conceitos, preocupação, angustia, meio conhecimento, complexo de culpa e, o mais cruel dos conceitos que conheço, o dia-a-dia.
Gostas sempre de suscitar nos outros novas maneiras de pensar, contudo, não podes querer que os outros se verguem a essas novas formas, tens de respeitar os outros, o que eles pensam, o que já viveram, aquilo que querem viver, tens de ser mais comedido com a maneira de dizeres aos outros aquilo que pensas.
-Sabes que assim não sou, não tento impingir nada aos outros, mas não me castro de dizer nada a ninguém, depois pensem o que quiserem.
A noite já vai longa, acabo como comecei, sabes que gosto sempre de um pensamento.
Shakespeare disse: “Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes”.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Novamente a Clarice...




“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

Clarice Lispector




domingo, 14 de fevereiro de 2016

Banalidades genéricas


Monólogo solitário retificado.

Fazes parte de uma consciência crítica, envolveste-te numa permanente discussão intelectual dentro de ti mesmo, mas porque, por que o fazes? Lembro-me de há uns anos uma amiga (Rosa) me dizer que se identificava muito com coisas que escrevia. É normal, respondi-lhe, repara, se fores à bruxa as banalidades genéricas que ela te dirá são na sua essência validas para 80% de todos nós, assim é a minha escrita, banal, genérica. Tal bruxa, se eu falar dos meus avós, obrigatoriamente, vão-se lembrar dos vossos e, como a nossa história antepassada é quase comum, se eu especificar, claro que se vão lembrar de episódios parecidos dos vossos. `
É esta capacidade acrítica que eleva a escrita ao altar da banalidade, esta maneira constante de estar sempre a pensar sem pensar em nada de concreto.
Tem vezes, muitas, em que nem reconheço qualquer tipo de propriedade científica ao meu pensamento, como agora, outras em que reconheço apenas uma enorme firmeza de fazer a vontade a Nietzsche, em que, para ele, (e para mim, acrescento) a verdade é apenas uma ilusão criada pelo homem para dissimular o intelecto.
Não sei interpretar todas as correntes filosóficas que conheço, não tenho essa capacidade, no entanto, valido todas aquelas que colocam a dúvida acima da razão, duvido sempre, sou sempre atroz com a realidade, como a bruxa, escrevo apenas banalidades genéricas, essas não interferem com nenhuma corrente que possa causar dano ao leitor, mas sim, sempre critico.
Por falar em avós, o meu materno combateu o fascismo, pela certa, ganhei com isto acérrimos seguidores, cujos avós tomaram também eles essa participação anónima na historia.
Perguntei a mim mesmo por que usei agora a palavra acérrimos, pensei pouco, acérrimos porque conhecem o sofrimento dos outros e lá diz uma outra corrente filosófica, o sofrimento une as pessoas, falo da filosofia budista, a mesma que reconhece o sofrimento como parte da nossa ignorância.
E, no final da consulta, com as mãos firmes como estas com que escrevo, a bruxa sem qualquer tipo de sentimento, deslocando uma sobrancelha na direção do teto pouco iluminado, diz-te, para veres sempre o lado positivo das coisas, num ápice suga o ar de um molar cariado e acrescenta em tom monocórdico, que o tempo cura tudo, até as feridas, sendo que isso a gente já sabe que não corresponde à verdade, por tal, também eu não me revejo nestas lápides de banalidades gerais.

Na minha quero escrito:

Aqui jaz Rogério contra a sua vontade.

Admirável Mundo Novo





O "Admirável Mundo Novo " de Aldous Huxey, o melhor romance distópico de todos os tempos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O meu caminho!

Podes fugir, podes saber que nunca serás a minha outra escolha, podes ate pensar que é do teu lado que permanecerei.
Podes não perceber porque fugiste, caminhar ao longo do nada, porque nada é tudo, e tudo é apenas um espaço vazio, um espaço por preencher, por nunca me veres carpir sem razoes aparentes, sem a realidade por detrás de mim, sem a alma fria, constantemente, dentro de um espaço vazio.
Podes não perceber que a palavra “esperar” é sinonima de partir sem nunca olhar para trás.
Podes não entender que quando se trilha um caminho não antecipamos obstáculos, caminhamos. Podes ate não acreditar que as palavras são apenas uma maneira singela de exprimir sentimentos, podes ate não perceber porque fugiste sem palavrear.
Podes nunca perceber esta sombra, esta maneira de não ser nada, de mostrar tudo e esconder algo, podes não reparar que existem outras maneiras de te ver, de te ser, de te ver e ser ao mesmo tempo. Podes ate encontrar uma outra maneira de viver mas, nunca mais serás aquilo que viveste, aquilo que mostravas ser, perdeste a única maneira de te encontrares, perdeste o sentido que te atravessava a alma e te fazia lacrimejar o coração. Não importa a maneira como te vês, podes ate ver-te como a melhor de todas as escolhas, a melhor de todas as diferenças, a melhor forma de te ouvires porque não escutarás nada, não encerras essa capacidade de te ouvires, de te enfrentares, de nunca achares que chegou a ultima noite o ultimo momento, o momento de saberes como os outros se sentem, de como eu me sinto, não tens essa capacidade, Talha-te o modo de pensares as emoções que sentes, talham-te as palavras vãs que prenuncias em que não acreditas, as que nunca sentiste, as que nunca quiseste aprender.
Só mais uma noite, nada mais, apenas uma outra noite, nela podes sentir a banalidade da palavra, autenticidade abrangente do retorno da ideia plena, fuga atroz da mentira que é não te poder corrigir mais.

Podes ate parecer que voltarás a ser, mas não, nunca mais voltaras a ser, perdeste o jogo do ser, ser e não ser é ser na mesma, perdi-me, como disse Clarice lispector “Perder-me também é um caminho”. Digo eu, o meu caminho.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Nem dó nem si...



Vamos a lugares onde permanecemos só por instantes, onde não existe simetria, nem vivos nem modo de estarmos vivos. Lugares onde não existem melodias, nem dó nem si.
Sítios onde nunca se pôde analisar o Universo, nem com asas, nem onde se percebem os porquês. Sítios onde não vivem corações, só humilhações, nem dó nem si.
Locais onde o sofrimento é ordinário, onde não se colhe porque não se planta, nem chão existe, nem mar. Locais onde não há tranquilidade nem discórdia, nem dó nem si.
Terras onde o céu não tem cor, onde não chove porque não existem nuvens, nem se fala, não existem línguas. Terras onde não há condenações, nem perdões, não existe gente, nem dó nem si.

Nem dó de si…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O Mestre

                                            

"Meu Deus ajuda-me a errar melhor. Goethe sustentava que é o não chegar que faz a nossa grandeza. Morrer à vista da Terra Prometida sem conseguir tocar-lhe. Se Deus, como penso, existe de facto, gostaria de acabar assim. Quase lá, a centímetros do que quereria dizer, olhando a areia em que não chego a tocar. Isso me basta: ficar a centímetros da areia em que não chego a tocar, de boca aberta, sem olhos e, no entanto, vendo."
António Lobo Antunes
(in crónicas Visão.)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Olha!



Olha para mim a qualquer instante, qualquer um que te faça recordar apenas a maneira como me possuis, olha para mim, vira-te, conhece-me, preenche-me este espaço vazio enquanto espero por te dizer, encara, olha para mim.
Pára de chorar, sente-me enquanto me agarras a mão, olha para mim sem te perderes, sê, conjuga este simples verbo que chega sempre antes de te ires embora.
 Olha para mim mais esta noite, mais esta experiência de entenderes como me sinto, deixa os “eiros” infindavelmente, enquanto eu não fico isolado, aprende a viver só mais esta noite, olha, olha para mim.
Olha para mim sem temor, sem medos, entrega-te como todos os dias, entrega-te com todas as tuas cores, vive algo de subliminar, sem receio, sem medos, de maneira que eu te sinta respirar.

E, se me abandonares numa manha qualquer, nunca te esqueças que um dia olhaste para mim e eu para ti.

domingo, 22 de novembro de 2015

Não, não é cansaço





Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.


                     Álvaro de Campos

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As palavras que te envio são interditas

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma  regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

                      Eugénio de Andrade

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

As teorias Selvagens



“Para «R», a constelação de palavras que orbitavam tranquilamente ao redor dos orifícios anal e vaginal parecia algo indescritivelmente ousado, adulto, diferente de tudo conhecido (e, por contraste, semelhante ao amor), cujas consequências o deixavam à beira do priapismo”.
By: Pola Oloixarac in “ As teorias Selvagens”.